Mãe
- Gabriela Ruivo Trindade
- Feb 16, 2017
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Onde quer que vá, o teu rosto persegue-me. Vejo-te embutida na paisagem, os cabelos emaranhados na copa das árvores, os olhos aquosos perdidos nas nuvens, a testa larga na curva da estrada. As tuas mãos sofridas, a alma enredada nos dedos desfiando a razão. Vejo-me criança, seguindo pela estrada e em lugar de te deixar para trás, transporto-te comigo. Sempre te conheci lavada em lágrimas; mágoa pura, cristalina. Passajavas meias com o fio da dor e eu quedava-me ao teu redor para assim receber um pouco do calor que emanava da tua presença, ou seria da tua ausência? Estavas ali e era como se não estivesses, os dedos trémulos alinhavando pontas e os olhos perdidos em terras distantes, que eu adivinhava de paisagens inóspitas. Tanto que queria chamar-te, gritar por ti; encontrar os teus olhos por entre o vinhedo e sentir-me inteiro só porque me devolvias a existência na ternura com que me olhavas. Porém, nunca te encontrava. O teu olhar sempre foi esguio, escorregadio; como se estivesses cheia de pressa e não te pudesses demorar nem mais um minuto no mundo. Partiste tão cedo... Não guardo memórias do tempo em que me seguraste no colo e embalaste ao peito. Cantarias para mim? Pousarias em mim os teus olhos doces, abririas um sorriso cansado? Não tenho ideia. A única coisa tua que guardei foi a ausência, um buraco negro que aprendi a encher de areia, nas brincadeiras de criança, à beira-mar. Uma dor branda que já se tornou parte de mim. Quando te foste, deixei somente de ver o pontinho no horizonte em que te transformaras. Quem sabe por isso não me incomoda o teu fantasma na paisagem. Agora, que só me resta imaginar-te, posso ao menos devolver-te alguma cor às faces e um brilho cálido ao olhar, de forma a ver-te como sempre desejei; e as lágrimas que ponho a correr dos teus olhos são as mesmas que, tenho a certeza, não derramaste no momento em que a água te alagou os pulmões. Ansiavas tanto partir que foi um sorriso, estou certo, que o mar veio beijar ao de leve nos teus lábios.
© Gabriela Ruivo Trindade